A Qualidade da Instrução

Face à aridez mental ante o que abordar na coluna deste número, resolvi garimpar e dar uma olhada nos meus arquivos e encontrei a mensagem abaixo enviada à Lista Parapente BR em 1998.


Silvio Ambrosini (Sivuca) wrote:

Um piloto arborizou 3(três)vezes em 3(três!) tentativas sucessivas de decolagem.
É muito fácil colocar alguém para voar. Em uma hora de treinamento já dá pra enrolar um trouxa e colocá-lo no topo de uma montanha pra inflar um paraglider, empurrar o cara, lá embaixo teleguiando o fulano pelo rádio até seu "pouso seguro". Depois e só apertar bem a mão dele e dizer: "Parabéns, você terminou seu curso !".
Como em uma repartição, na caixa de entrada o cheque, na caixa de saída – o infeliz. E ainda dá tempo pra gritar: "O PRÓXIMO !

Silvio

 Você está sendo muito exigente. Uma hora? Não é muito? Já vi com “menas” como se diz no NE.
Hoje, por exemplo, vi um full estol de Saber(um daqueles vendidos a preço de banana pelos gringos na semana passada) com o piloto escapando de cair dentro da vela por um metro.
Passei pela Canoas às 6 da manha indo para a Tijuca. Atmosfera estável e uma leve brisa de frente. Pensei que iria decolar tranqüilamente um aluno marcado para as nove.
Quando passei de volta as 8 e meia, já encontrei térmica explodindo durante toda a subida do Alto pelo lado da Tijuca.
Imaginei duas coisas: Vento Sul (que otimista) com térmicas de rotor a sotavento ou vento de quadrante Norte. Talvez NE.
Ao passar pelo viaduto das Canoas descendo vi que era NE puro e forte na altura da rampa (tanto a biruta do Cerezo no topo da Agulhinha como as da rampa estavam óbvias). E tinha um paraca todo embolado na decolagem. Provavelmente por ação de uma rajada mais forte de cauda. A biruta, esticada "de frente para a cauda" como soe afirmar um voador daqui. Não entendi nada, mas desci já sabendo que era mais um dia perdido. Pelo menos, para mim.
Na praia já vi que o paraca havia decolado e outro se preparava.
Deste, só vi o final com o piloto quase caindo dentro do velame no meio do caminho para a praia. Não sei o que houve. Colapso com reação espasmódica de estivador? Mas que foi por pouco foi. Ia ser igual ao Ricardo de Gramado.
Desconfio que eram alunos. Ambos. E de Saber.
São Conrado enfrentando mais uma vez o Dragão da Maldade saiu vitorioso.
Conheço pouco o Saber. Voei com ele uma vez no Sul. Achei-o muito tranqüilo, dócil e ágil. Homologado Performance, não lhe conheço os detalhes de homologação (algo que todo piloto deveria olhar, mas a maioria não se interessa e simplesmente aceita o que lhes é dito - num parapente Performance, é fácil saber porque ele não passou Standard).
O que posso dizer do pouco que o conheci é que é um paraca que pode ser voado por piloto novato nas condições tranqüilas do Pepino. Desde que esse piloto seja habilidoso, calmo, frio e controlado. Mas, principalmente, bem formado.
Não é paraca para ser voado com NE atuante no Pepino. Aliás, nessa condição, a maioria dos pilotos, em qualquer parapente que seja, deveria estar batendo papo no quiosque. 

É isso ai Sivuca. Aproveitei a deixa já que o fato ocorreu não tem 2 horas.

PPI

 

Essa mensagem serviu de emulação então para que eu sentasse e escrevesse. Não existe nenhuma novidade, tudo se repete e é o que vou fazer. Repetir o que já se escreveu muito por aí.
Passados oito anos, será que as coisas mudaram?
Será que a instrução de parapente melhorou?
Será que os alunos estão sendo liberados para voar sozinhos em condições mínimas de enfrentarem situações de emergência com segurança?
Estarão sendo “soltos no mundo” em condições de avaliar a condição aerológica ruim de um dado momento e decidir certo que não devem decolar?

Você, que é piloto novato, pare e reflita.
Você foi alertado para decidir decolar em função da sua experiência/habilidade e não ir na “onda do grupo” ?
Por exemplo, no caso do Rio, não ir voar em Petrópolis logo depois de liberado? Enquanto não tiver adquirido um pouco de “hora de esquina”?
Que depois da decolagem, independente de quão seus amigos sejam os outros pilotos, você vai estar sozinho e terá de tomar suas próprias decisões e sair das paradas ruins por conta própria?
Que o máximo que os outros poderão fazer por você será testemunhar sobre o que ocorreu?
Foi-lhe ensinado durante o curso como usar do acelerador?
Você praticou isso incontáveis vezes supervisionado pelo seu instrutor?
Você praticou o colapso de orelhas durante o curso?
Não basta que lhe tenha sido dada uma explicação. É necessário que você tenha praticado essas ações com bastante empenho de modo a poder executá-las num piscar de olhos, sem perder tempo algum procurando onde está o acelerador ou relembrando que linhas ou tirantes devem ser puxados para fazer “orelhas”.
A pronta resposta à necessidade de velocidade, ou de perda de altura, não pode sofrer qualquer retardo sob pena do piloto ser levado pelo vento para trás do relevo ou ser sugado por uma nuvem.
O seu instrutor supervisionou a instalação do acelerador na sua selete e checou a sua regulagem?
O seu instrutor já o chamou depois de algum tempo voando no Pepino, após a liberação, para fazer estol de B ou colapsos assimétricos sob controle dele?
Você já perguntou ao seu instrutor o que é SIV e se ele já fez ?
Você, quando liberado, foi orientado a não sair do Pepino e ir voar no interior antes de alguma experiência?
Não faz muito, um piloto se acidentou no Pepino com conseqüências fatais, levado pelo vento para trás do túnel. Não se sabe o que aconteceu, mas certamente, alguma bobeada ele deu no uso do acelerador, se é que o tinha instalado.
Isso já aconteceu antes. Muitas vezes e, invariavelmente, com pilotos novatos que, ou estavam com o acelerador sequer instalado ou o tendo, o tinham desregulado e inútil. Ou então, tinham-no desconectado porque não tinham a menor idéia de como usá-lo. Alguns não tinham um mínimo de adestramento para usá-lo com presteza.

E o mais lamentável de tudo isso é que até hoje a AVLRJ não estabeleceu um programa mínimo de instrução a ser cumprido. Cada instrutor faz o que bem entende, às vezes, pautado no mais primário dos argumentos.
Houve um (aquele do Céu dos Voadores que fez o vôo com a nudista em Tambaba) que disse que nos vôos de aluno em formação não era preciso usar acelerador e por isso ele não ensinava.
E o aluno, sempre crédulo e propenso a julgar seu instrutor como o mais íntegro e judicioso mestre da nossa arte, o seu deus, raramente questiona, por vezes sequer a identificando, essa omissão na sua instrução.
Há muitos anos, mais de dez, foi sugerida a criação de uma ficha confidencial a ser preenchida por todo aluno após o término do curso, comentando o que ele aprendeu e o que gostaria de ter aprendido.
O assunto morreu, mas lembro de que em determinada época, chegou-se a cobrar de cada instrutor um programa de instrução do seu curso. Lembro bem disso porque respondi que o meu estava no MAPIL.
Essa iniciativa também não passou disso.
O SIV, por exemplo, não é exigido sequer para vôo-duplo. Para instrutor então, nem se fala. Como pode isso ainda existir passados quase vinte anos de parapente no Rio?
Como pode alguém ministrar instrução se não se preparou para isso? O que responder para o aluno inquiridor quando ele perguntar sobre emergências? Que essa parte do vôo não é comigo?
Que depois você faça um SIV?

A ABP, tão mal falada pelas bandas cariocas, exige SIV para vôo-duplo e acho que para instrutor também. Digam o que quiserem, mas esta é uma forma séria de organizar o esporte.
O que diria um passageiro leigo de vôo-duplo se lhe fosse dada uma aula completa sobre parapente e informado sobre a não-exigência de SIV para o piloto que vai ter a sua vida nas mãos ?
Dirão alguns, os rebeldes que não querem evoluir, que no vôo-duplo a carga-alar é tão grande que as roubadas são improváveis com probabilidades mínimas de ocorrerem.
São os amadores que desconhecem que prevenção de acidente aeronáutico não se faz com estatísticas e sim com ações. Se algo pode dar errado e há como prevenir, a ação deve e tem de ser posta em prática.
Mas a situação é mais grave do que se imagina. Basta uma avaliação nas decolagens na rampa do Pepino para se verificar que, seguramente, metade dos pilotos antigos que decolam “alpina” não checam o velame.
E que aos alunos de muitos instrutores isso não é cobrado e que estes já começam errado desde o início. O cheque e a correção, se necessária, são problemas de Deus.
Como disse o Sivuca, “na caixa de entrada, o cheque” e que venha o “PRÓXIMO”.

Na verdade, a deformidade é ainda pior. É só observar as decolagens de duplo. Uma parcela considerável dos pilotos também entrega o problema do cheque do velame ao Onipotente Senhor.
E este, frente à gravidade dos problemas mundiais, o delega para São Conrado.

Fica aqui a minha sugestão para que o “sangue novo” da AVLRJ rompa essa inércia de anos e anos de omissão e dê partida numa nova era.