XUXA CLAVA

Há coisa de uns dois meses, recebemos de um piloto de parapente o relato que se segue:

"... sou pára-quedista (fui inclusive militar, mestre-de-salto e comando em selva) e hoje vôo de parapente;

fui voar com vários voadores de Macaé em Sumidouro; após mudança de área de decolagem, em que eu liberei os tirantes das pernas, e à falta de novo cheque, decolei desconectado e fiquei pendurado durante mais ou menos 7 minutos até voltar para o morro; quando estava na altura de uns seis metros, o braço esquerdo não agüentou segurar mais o elevador; como estava puxando o freio direito o parapa guinou violentamente e me jogou centrifugado ao chão provocando fratura de 3 costelas, externo em 2 lugares e ossos do orbital do olho. Hoje já estou recuperado e já voando e por isso faço esse alerta, e ao mesmo tempo concordo com você que além de checar, checar e rechecar, há que se cobrar de alunos o treinamento e o controle da ansiedade no vôo. As pessoas que estavam comigo não têm o mesmo espírito de segurança que tenho (adquirido como pára-quedista). Mas não quero tirar minha culpa no acidente não. Mas quem estava junto comigo e na minha frente, também tinha que ajudar a checar. Acho também que o arnês tipo pára-quedista militar de junção de quatro pontos num só, que só fecha com os quatro tirantes(antigo T 10 B) seria uma solução. Pessoalmente adotei na minha selete APCO Silhouete uma amarração das pontas com um cordão de pára-quedas de aproximadamente 25cm, o que me obriga a vestir a selete e que em caso de esquecimento do tirante da perna, eu ficaria como um arnês de pára-quedas. Sem mais para o momento...um abraço e bons vôos"

Coincidentemente, ainda está viva na memória de todos nós a decolagem de duplo de asa desengatado em que somente a incrível habilidade e sangue frio do piloto(e da passageira), evitaram uma tragédia. O que chega às raias do paradoxo porque, afinal, ele fez a besteira e no final, ele mesmo a consertou com incrível perícia.

E já tivemos também, nos idos de 92, o Roberto Figueiral decolando de parapente com os tirantes de perna desconectados e chegando na praia por conta do seu físico privilegiado (veja neste site as fotos incríveis tiradas pelo Fernando Teixeira que não se apercebeu, através do visor da câmera, do que se passava).

Abstraindo outros casos menos conhecidos, inclusive o do argentino que caiu da selete logo após decolar em Sapiranga, existe um fator comum nesses três episódios. Justamente a habilidade e a experiência que deveriam fazer com que essas mancadas não ocorressem com esses pilotos. Um pára-quedista, outro hábil e frio e o terceiro, um Piloto de Linha Aérea.

E porque essas mancadas ocorreram?

Por um motivo sobejamente conhecido na área de prevenção de acidente aeronáutico: QUEBRA DE SEQÜÊNCIA.

Toda vez que em uma atividade de ações repetitivas e padronizadas, se interrompe uma seqüência de eventos, existe uma enorme probabilidade de, cedo ou tarde, se recomeçar a seqüência saltando um item ou uma ação. Principalmente quando a seqüência é interrompida para fazer outra coisa. Essa outra coisa, inconscientemente, toma o lugar daquilo que deveria ter sido feito no procedimento normal.

É por isso que muitas vezes aviões pousam de trem de pouso recolhido. Basta que, no exato momento de baixar a alavanca, o piloto se veja obrigado a fazer outra coisa não prevista na seqüência.

Por exemplo, responder a uma chamada rádio na hora de baixar o trem. O ato de responder a chamada substitui o baixamento do trem e o piloto, inconscientemente, considera a ação feita.
Depois é só barulho de alumínio deslizando na pista com eventual luz e calor.

Do mesmo modo se explica o lapso quando uma seqüência já foi realizada e se desfaz uma de suas ações.

É o caso típico do piloto que desconecta os tirantes de perna da selete depois de tê-los conectado (geralmente porque se abortou uma decolagem ou coisa semelhante e a selete está incomodando).

Ou o piloto de asa que se desengata para ajeitar a máquina fotográfica.
Aí ele volta e não se engata.

E o que fazer para previnir essas mancadas?

Só existe um caminho: muita doutrina e conhecimento dos motivos que podem nos levar a entrar na roubada.

Nós escrevemos o MAPIL mais ou menos na mesma época em que o Roberto decolou com as pernas desconectadas e buscamos uma forma de fazer frente a essa possibilidade

Adaptamos uma prática comum na Aviação de Caça da USAF e adaptada também na FAB: o cheque de última chance.

Uma equipe de manutenção fica à postos na cabeceira da pista durante toda e qualquer operação e quando um avião está pronto para decolar, o piloto não decola.

Antes, a equipe de terra faz uma vistoria externa no avião e se tudo estiver OK, então aí sim, o piloto recebe o sinal de livre decolagem.

Foi inspirado nesse procedimento que criamos o XUXA CLAVA, Xeque de Última Xance com o CLAVA representando: Centro do velame, Linhas, Arnês, Vento e Área livre. Chegamos até a pintar na borda do primeiro carpete a sigla que tanto intrigava quem chegava na rampa e olhava para baixo.

O curioso é que instintivamente e sem saber os pilotos de asa já faziam esse XUXA há muito tempo. A "quilha" que todo mundo pede é exatamente quase um cheque de última chance. Foi uma constatação que fiz quando da minha breve experiência na área dos vertebrados e que também me motivou a aplicá-la no parapente.

Mas de pouco adianta um aluno estudar o MAPIL, tomar conhecimento do XUXA CLAVA, fazer prova e não aplicá-lo na prática porque seu instrutor não o habituou. Ou não exige.

O que posso dizer é que nos habituemos a fazer o cheque de última chance mesmo que ele não nos tenha sido cobrado na instrução. Procure observar as decolagens e você verá como são poucos os que fazem o cheque. E outro hábito sagrado que devemos condicionar é que jamais fiquemos com a selete no corpo sem que ela esteja totalmente conectada. Porque se o fizermos, um dia iremos esquecer de conectá-la.

De parapente, façamos o CLAVA e de asa, no mínimo, antes de começar a correr, confiramos uma última vez se estamos engatados.