Placas outra vez

Resolvi escrever este pequeno libelo por causa de um faraó. Para ser mais exato, Queóps, o das pirâmides. Eu explico.
Não sei bem se fui eu mesmo que inventei essa estória ou se a ouvi de alguém. Já a repeti com tanta ênfase, tantas vezes, que nem sei mais.
Consta que no Egito antigo, Queóps teria sido o maior mulherengo de todos os tempos nas plagas do Nilo. Um paquerador inveterado e um camofo insaciável.
Não se tem notícia de egípcia que, tendo convivido com ele, não tivesse sido, pelo menos, cantada. A maioria, faturada.
E assim é que sua fama chegou às margens norte do Mediterrâneo. Parece que até na Inglaterra já se falava da performance sexual do insígne governante egípcio.
Mas o fato é que, depois de morto, sua fama se foi apagando com o tempo e o mundo moderno nunca chegou a saber muito sobre a vida privada de Queóps. Até, pelo menos, 1848.
Foi quando Champolion decifrou a escrita egípcia da Pedra de Roseta e permitiu que as inscrições das paredes da câmara mortuária da pirâmide de Queóps fossem traduzidas.

Mas é preciso que a gente se reporte ao enterro de Queóps para entender a razão das inscrições.
Cumpridos todos os rituais fúnebres, chegou a hora de lacrar a câmara mortuária. Eis que nesse momento, um dos operários, o pedreiro Otnorcu, se tocou que havia esquecido sua pá no interior e voltou para buscá-la. Demorou um pouco para achar mas acabou saindo lá de dentro com sua ferramenta de trabalho.
Otnorcu era um operário muito conhecido e respeitado por todos. Nem tanto pela sua simpatia, quanto por sua competência mas, principalmente, pela formosura de sua dadivosa mulher que gozava de enormes regalias na corte. Todo mundo sabia da transa dela com Queóps, menos o pobre Otnorcu.
Era o que se pensava.
A grande surpresa ocorreria quase três mil anos mais tarde quando, ao se traduzir os hieróglifos das paredes, os arqueólogos encontraram uma inscrição taxativa: "Aqui jaz Queops, o maior boiola do Egito".
O que aconteceu é que Otnorcu, ao sair por último da câmara mortuária, letrado que era, tacara o grafiti na parede. E o resultado foi a doce vingança.
Queóps, o maior camofo do baixo Nilo entraria para a história como boiola.
Simplesmente porque sua fama, ao ser transmitida de boca em boca, se havia perdido no tempo. Ao passo que a simples inscrição feita à última hora por Otnorcu, seria preservada para a eternidade.

Por isso, resolvi escrever este artigo. Falar não tem adiantado muito para se corrigir um tremendo desrespeito perpetrado contra a memória de quem já se foi.
Talvez que escrevendo, o assunto receba a atenção devida por quem de direito.

O dia era domingo, 21 de dezembro de 1969.
Fui acordado, às seis da manhã, pelo Comandante, que chegando em sua velha Kombi, me informava do ocorrido.
O C-130 2450 caíra pouco antes, ao retornar em emergência para o pouso em Recife de onde havia decolado.
Era uma viagem a Zurich que trazia transformadores para Urubupongá. Não havia sobreviventes.
Assim perdemos os amigos Zé da Silva e Ney Adriano. Estavam a bordo também o SO Fonseca, RTVO, o SO Pinto da Seção de Tráfego Aéreo Internacional, o 2S E. Silva, Mecânico de Vôo(que havia sobrevivido a um acidente muito grave em Santa Maria em 1965 no qual havia tido uma séria fratura de perna e só agora estava retornando ao vôo), O 2S Moia, Mecânico de Vôo, e 2S David do GSM.
O acidente foi algo contundente que nos marcou a todos. O avião voltava de uma viagem à Europa e estávamos a quatro dias do Natal. A tripulação ansiava pelo retorno ao lar depois de uma semana fora e os presentes para os entes queridos estavam dispersos entre os destroços do que sobrou do 2450.
Foi um Natal triste para o Esquadrão. Mas o acidente foi trágico também pela sua própria mecânica.
O fabricante imediatamente vaticinou sabotagem e não quis mais conversa.
Reconstituída a trajetória, verificou-se que o avião havia retornado após cinco minutos de vôo, declarando emergência e entrando na perna-do-vento da pista 18. Girou para a perna-base bem afastado, perdeu altura durante a manobra e, invertendo a curva para fora, caiu na margem esquerda do Rio Beberibe (ou Capiberibe sei lá, um dos dois que se juntam para formar o Oceano Atlântico).

Testemunhas afirmaram haver fogo sob o a fuselagem dianteira na perna-do-vento e fragmentos de peças do alojamento da bequilha e do radome foram encontrados no local, confirmando que algo de verdade existia nos depoimentos.
Logo surgiu a suspeita de que um acumulador do sistema de direção da bequilha ou coisa semelhante havia explodido atingindo uma linha do conversor de oxigênio líquido. E as peças encontradas sob a trajetória da perna-do-vento teriam-se desprendido nessa explosão.
Com a ruptura da linha de oxigênio, sobreviera o fogo sob a cabine que logo tornaria o avião incontrolável.
Aí residia a grande controvérsia. O fabricante taxativo sobre sabotagem e o OSV, isento, buscando a verdade.
O CTA entrou no esquema e parece que quase por acaso(posso estar errado e sendo injusto - lembro que foi o que ouvi na época) acabou decifrando o enigma.
Depois de aquecer o acumulador sem conseguir reproduzir a explosão, consta que o mesmo explodiu quando esfriava e ninguém mais achava que algo pudesse ocorrer.
A rosca da tampa do acumulador havia sido encontrada com fortes sinais de corrosão e se havia utilizado uma exatamente nas mesmas condições durante a experiência.
O acidente então, pode ser reconstituído.
O aquecimento do radome deu alguma pane, foi acionado e provocou um forte vazamento de ar muito quente na área do compartimento da bequilha, exatamente sob o acumulador cuja tampa estava com corrosão na rosca.
A tripulação, constatando o problema do aquecimento do radome, retornou para o pouso. Na perna-do-vento o trem foi baixado. O brusco resfriamento do acumulador que devia estar sob ação direta do vazamento de ar quente provocou a explosão e o conseqüente fogo no nariz pela ruptura da linha de oxigênio. O que começou como uma pane sem menor importância terminou em tragédia.
O CTA recomendou a utilização de nitrogênio no acumulador e não mais ar comprimido como até então era feito. Assim , seria evitada a corrosão da rosca da tampa. Nós adotamos a recomendação de imediato. O fabricante se manteve fiel à versão de sabotagem e não aceitou a conclusão do IAA.
Curiosamente, alguns meses mais tarde, recebemos um Boletim de Serviço da USAF recomendando usar nitrogênio e não mais ar-comprimido no acumulador. Não sei se a fábrica depois aderiu.

O Esquadrão, traumatizado, logo no início de Janeiro decidiu perpetuar a memória da tripulação com algum tipo de registro material. E o fez rapidamente como soe acontecer com os Caçadores. Rápido e bem feito. É assim que deve ser. Não se pode perder a oportunidade.
"Atreve-se o tempo até às estátuas de bronze, quanto mais ao coração dos homens" e à missa de Sétimo Dia já se vai à contragosto.
Como o nosso Comandante havia "importado" de Recife o Cabo Leite para pintar o painel da entrada do Esquadrão homenageando a primeira volta ao mundo feita por avião da FAB - havia sido exatamente o 2450 que a fizera - resolveu-se aproveitar o painel e colocar ao seu lado uma placa em honra aos que faleceram no acidente.

Um trecho bíblico extraído do livro "Azas ao Vento"do Brigadeiro Newton Braga encimava a placa:
"Em verdade Senhor, que importa a morte enquanto houver semente".

O que parece é que a semente não germinou.
Um dia, não lembro bem quando, ao comparecer à Seção de Tráfego Aéreo Internacional para revalidar o meu cartão, não encontrei mais a placa na parede.
Fiquei ainda mais surpreso quando a maioria dos militares do Esquadrào, quando indagados, me informou, ou que nunca tinham visto a placa, ou que se lembravam dela mas não sabiam do que se tratava.
Depois de muito buscar, encontrei alguém que explicou que em vista dos acidentes ocorridos em Santa Maria e Noronha, fora decidido fazer um memorial para homenagear os tripulantes falecidos nos três acidentes mas que o tempo passara e o memorial não havia sido feito.
Fiquei então a imaginar se a França, depois das vitórias da 1a e 2a Guerra Mundiais houvesse resolvido derrubar o Arco do Triunfo parar fazer um monumento novo.
Sei lá. Acho que eu devo ser diferente. Parece que a insólita iniciativa só mexeu comigo. O resto do pessoal antigo nem se tocou. Estava certo o Padre Vieira.
Mas o que mais choca é que os inventores que resolveram fazer o memorial fizeram a coisa diferente dessa vez. Rápido e mal feito. A intenção ficou na ação primeira.
Sumiram com a placa e ponto final.

Não cabe aqui questionar, apenas lembrar, que, talvez, a retirada da placa, mesmo que inconcebível para quem tem um pouco de amor à tradição, deveria ter sido a última ação e não a primeira. E que a placa, uma vez retirada, depois de feito o memorial, devesse ser incorporada ao Histórico da Unidade.
Pois é. Pode ser que escrevendo alguém se digne a consertar as coisas.
A placa original, duvido que apareça. Foi fundida em bronze e já deve ter retornado à condição de matéria prima.
Como breve teremos a promoção do primeiro Brigadeiro da turma do Zé e do Adriano, é bem capaz de alguém se mexer e fazer outra placa. É o que espero.
Como lembrança, gostaria de registrar que em Dezembro vai fazer vinte anos que o 2450 caiu em Recife. É uma boa hora para botar a placa de volta no lugar.

Sem ela eu não compareço mais ao aniversário do Esquadrão.

E é o que deviam fazer os tripulantes da época.