B-26 Marauder, um esclarecimento

Bem, vamos começar pelo começo e sintetizando ao máximo.
No cenário da II Guerra, um avião de bombardeio podia ser classificado como Médio ou Pesado. E Leve, que seriam os aviões menores restritos ao campo estritamente tático da frente de batalha e quase sempre também denominados Bombardeiros de Mergulho(no caso americano, todos embarcados).

Do lado americano, classificaríamos como Bombardeiros Médios o B-25(Mitchell) e B-26(Marauder). Como Pesados, o B-17(Flying Fortress) e B-24(Liberator) e, como fora-de-série, já extrapolando o cenário da II Guerra, o B-29.

Os aviões pesados seriam capazes de, com grande autonomia e grande capacidade de bombas, atacar a área do coração inimigo, ou seja, realizarem as missões ditas estratégicas. Aquelas que a longo prazo minariam o esforço de guerra inimigo(são célebres as missões americanas para destruir fábricas de rolamentos na Alemanha).
O Bombardeiro Médio foi um tipo de avião que já entrou em guerra meio anacrônico(embora a Alemanha só tenha tido aviões dessa categoria - os que poderiam ter sido produzidos na classe de pesados não tiveram sua produção valorizada por Hitler, para sorte da Inglaterra).
E o B-26 Marauder, fabricado pela Martin estava no time dos Médios. Foi projetado tendo como meta ser um avião rápido e capaz de fugir da Caça, por certo com alguma inspiração na doutrina alemã que assim pregava( o problema é que se projetava e desenvolvia um avião de caça muito rapidamente e mesmo que um bombardeiro fosse mais veloz, o era por pouco tempo).
Aconteceu, portanto, que esse objetivo não foi atingido. Nem o B-25, nem o B-26, tinham velocidade para fugir da Caça alemã (não acredite que eles eram mais velozes que o Me-109; não eram e, mesmo que fossem, bastaria esperar mais alto e mergulhar, o que era feito de qualquer modo). Além do mais, suas autonomias eram restritas e eles não podiam penetrar em muita profundidade em território inimigo. Mas talvez a maior carência desses aviões tenha sido a incapacidade de operação a grandes altitudes totalmente carregados.

A primeira missão de bombardeio americana na 2a Guerra ocorreu a partir de bases na Inglaterra contra objetivos na França ocupada. Essa missão foi voada por um esquadrão de A-20 Havoc(chamado de Boston pelos ingleses) a média altitude(3-4 mil metros) e resultou em um desastre total. Salvo erro muito grande de memória, quase todos foram abatidos. Ou pela Caça, ou pela antiaérea alemã.
Ficou patente, então, que esse tipo de avião só poderia operar em ambiente de superioridade aérea absoluta. O que quer dizer, Caça inimiga fora do ar. Mas ainda havia que enfrentar a antiaérea que se mostrou na 2a Guerra, devastadora para quem voava baixo.
O B-25, um avião mais ágil, foi logo adaptado com armamento de cano atirando para frente e foi amplamente usado no Pacífico, caindo na medida exata para ataque rasante às pistas de pouso japonesas nas ilhas ocupadas e no ataque à navegação marítima (o B-25 chegou a ser equipado com um canhão de 75mm no nariz; quem assiste Asas no Discovery fique atento pois há um filme raríssimo com esse canhão atirando).
O B-26, mais pesado e limitado, não teve como se adaptar e continuou sendo usado como avião de bombardeio de médio alcance em locais sem grande oposição aérea e contra objetivos não muito defendidos por AAA.
Um exemplo clássico foi o desembarque na Normandia no Dia D. A superioridade aérea aliada era quase absoluta e, de qualquer modo, o que tinha de caça aliado fazendo escolta(é uma forma de se ter superioridade aérea momentânea) não dava para contar. E tem outro detalhe, mal comparando, as missões voadas no desembarque seriam mais ou menos como decolar do Rio e ir bombardear Cabo Frio. Tudo muito perto.

No Pacífico, depois do desembarque nas Marianas, para se chegar ao Japão ainda faltavam uns 1200km, distância que nem os quadrimotores B-17 e B-24 conseguiam vencer ida e volta. Daí a necessidade do B-29. Eles tinham de voar 5-6 horas, bombardear, se defender da Caça e voar 5-6 horas de volta, muitas vezes com danos de combate e feridos a bordo.
Por isso, os americanos se empenharam tanto na conquista de Iwo Jima, uma ilha que fica a meio caminho entre as Marianas e o Japão. Ali se assegurou um local para pouso de emergência e, principalmente, se criou condições para os P-51 Mustang decolarem e escoltarem os B-29 na ida e volta aos objetivos no Japão.

Na verdade, o B-26 foi um avião bem medíocre que, tão logo terminou a guerra, ou virou panela ou foi adquirido por magnatas que os transformaram em excelentes aviões executivos.
Recentemente, um dos poucos exemplares ainda mantido em vôo na Forca Aérea Confederada(uma entidade de aficionados que mantém uma quantidade imensa de aviões da 2a Guerra ainda em vôo), caiu e se perdeu.

Para encerrar essa breve retrospectiva do B-26, citaríamos que ele foi conhecido na sua época por diversos apelidos: Widow Maker, Baltimore Whore e muitos outros.
E na Base Aérea de McDill em Tampa na Flórida, onde se ministrava instrução para os jovens pilotos que o iriam voar em combate, era muito famoso um soneto que mencionava a quantidade de acidentes com ele dizendo:

"One a day in Tampa Bay"