Escalando e Voando

Certamente, um grande segmento dos que praticamos montanhismo e vôo-livre de parapente, já nos teremos cruzado nas encostas da Gávea e da Agulhinha em São Conrado.
E, invariavelmente, nós teremos saudado mutuamente, com expressões do tipo "aí maluco" e etc.
Pois é...embora nós voadores ainda consideremos uma temeridade esse negócio de escalar morro pelo lado mais difícil pendurado em paredões - e quase todos morramos de medo ante a perspectiva de ter de fazê-lo em caso de acidente de vôo - é inegável a íntima relação entre os dois esportes.
O vôo de parapente teve origem no início dos anos 70 no meio do para-quedismo, mas a sua grande popularidade(em 1989 existiam 20000 praticantes na França) foi produto do enorme interesse despertado nos alpinistas ante a possibilidade de terminarem suas escaladas voando. Houve até o caso do francês Jean Marc Boivin, emérito montanhista, que decolou do cume do Everest para demonstrar a viabilidade do esporte.
Nas origens do esporte, foram usados improvisadamente, os pára-quedas retangulares com sua performance característica de grande razão-de-descida e reduzida razão-de-planeio.
A atividade recebeu, então, diversas denominações como paraquedismo-ascencional, paraquedismo-de-montanha, vôo-de-colina, até ser definida pela Federação Francesa de Paraquedismo como Vôo-Livre de Parapente(pente = colina), tendo os países de língua inglesa, e os paulistas, adotado o termo Paraglider( glider = planador).
Com a explosão da demanda nos anos 80, o parapente passou por uma evolução muito rápida, buscando-se melhorar o seu desempenho em relação ao pára-quedas, e o resultado é que ele é hoje um artefato de aerodinâmica bastante refinada, que guarda muito pouca semelhança com o seu predecessor.

Esse desenvolvimento, entretanto, trouxe uma limitação que, definitivamente, distingüe o parapente do pára-quedas:o parapente não é dimensionado para resistir a impactos de abertura, não se saltando com ele para abrí-lo em queda-livre.Com o parapente se decola. Ele é inflado com uma pequena corrida na direção do vento e decola na declividade com uma pequena atuação do freio.

Com a evolução, o parapente deixou de ser um mero instrumento de descida de montanha e passou a disputar espaço no campo do vôo-livre, área, até então, exclusiva do planador e da asa-delta. A meta passou a ser vencer a gravidade e prolongar o vôo fazendo uso das correntes ascendentes térmicas e orográficas e, se possível, percorrendo distância.

Apenas para se ter uma idéia do que um parapente é capaz de fazer, vejamos alguns recordes da Federação Aeronáutica Internacional:

E no Rio, o que fazemos? Bem, no Rio, o vôo é puro lazer. Decola-se da rampa da Pedra Bonita(500 m acima do mar) e se pousa na praia. Em condições absolutamente estáveis, são 7 minutos de vôo. Dependendo das condições, o vôo se prolonga indefinidamente, podendo-se "ganhar" a Agulhinha, a Pedra Bonita, o Cochrane, o Dois Irmãos e a Gávea.
Em dias muito especiais, já se conseguiu voar até o Cristo e voltar para o pouso no Pepino. Uns poucos pilotos já conseguiram isso, é verdade, e um deles, Bruno Menescal, é figura bastante conhecida no meio do montanhismo.

No que concerne à segurança, diríamos que ela é função do piloto. No Pepino, respeitando-se os ventos impróprios, ela pode ser considerada como 100%. À medida que se deseja voar mais alto e mais longe, se começa a transigir com o vento. E aí, a segurança diminui.
Voando no litoral, onde o vento marítimo é laminar e sem a turbulência gerada ao impactar com obstáculos, a segurança é total, mas o vôo, em si, é apenas diversão.
No interior e nas áreas de montanha, o vôo é melhor, mas a segurança também diminui.
O vôo cedo pela manhã e no fim de tarde, geralmente, é um vôo tranqüilo, mesmo no interior. No meio do dia, quando a atividade térmica é maior, ao contrário, as condições são mais delicadas.
Cabe ao piloto, portanto, fazer a sua segurança, decidindo onde e quando voar. Se você quer saber mais, apareça no Pepino e nos procure.

Agora, se o seu interesse realmente é grande, tire uma cópia do MAPIL(Manual do Piloto) que estamos enviando para a direção do jornal. É o primeiro passo.

É isso aí. Boas escaladas e, quem sabe, no futuro, possamos lhe estar desejando um bom vôo, conforme a nossa tradição antes de qualquer decolagem.

Esporte e Lazer, 1993