Desventura na Baía da Traição

Lendas sobre navios e aviões supostamente existentes no fundo dos mares do nordeste, existem muitas.
Há quem assegure até ter visto um B-17 americano amerissar em frente à Praia dos Artistas em Natal embora, em local algum exista comprovação do fato.
Já ouvimos, também, alguem afirmar que uma carcaça de embarcação existente no Potengí, do lado da Redinha, seria de um submarino alemão da Primeira Guerra Mundial !

Pois é... a propensão ao chute é universal. Basta alguem dar a partida que a coisa vai longe.
Mas é claro que com toda aquela movimentação em Parnamirim durante a II Guerra, os acidentes ocorreram e em quantidades apreciáveis.
Na travessia pelo "corredor" para a África, são incontáveis os aviões desparecidos e, em terra, episódios semelhantes também foram inúmeros, principalmente nas rotas Trinidad-Belém e Belém-Natal, onde a intertropical cobrava pesado tributo aos inexperientes aviadores americanos.
Há o caso conhecido do B-17 que, voando de Belém para Natal se perdeu e pousou em Fortaleza "inaugurando" o Pici que ainda estava em construção, o mesmo ocorrendo com uma esquadrilha de três Martin PBM3 da US Navy que ali reinaugurou a operação em água, desde há muito suspensa, no Rio Ceará.

Por essas e outras, é que, sem dar muito crédito, começamos a pesquisar rumores sobre a existência de aviões afundados na barra do Rio Maxaranguape, ao norte de Natal, e na Baía da Traição na Paraíba(cerca de 50 milhas ao Sul de Natal).

Com respeito ao primeiro, realmente não houve muita dificuldade. Há registro detalhado de um Catalina americano que caiu ao norte do Potengi em junho de 1943, quando chegava, com outros cinco aparelhos do Esquadrão VP-83 da US Navy vindos de Belém. Restava o avião da Paraíba, que ficou, mais ou menos, no esquecimento até que tivéssemos notícia de que um empresário da construção civil de João Pessoa havia solicitado permissão ao COMAR II e ao Distrito Naval para tentar resgatar os destroços de uma aeronave existente a cerca de 4 km do litoral na Baía da Traição a uma profundidade de cerca de 25 m.

O Sr. Deusdedit Queiroga de Oliveira é desse tipo muito especial de homem que não mede esforços ante a possibilidade de uma aventura. Já se envolveu em garimpo - me parece que comprou uma mina de agua-marinha que não deu muito certo - e, até um açude esvaziou acreditando fazer uma proveitosa pescaria.
A notícia de um avião afundado o entusiasmou e lá foi ele em busca de mais uma aventura.
Gastou um bocado de dinheiro simplesmente a troco de uma satisfação pessoal. Depois de cerca de quatro meses, ele conseguiu retirar do fundo do mar dois motores, duas hélices, uma perna-de-força, uma metralhadora .50, alguns cartuchos com data de 1942, caixas de equipamento-rádio e de navegação e muito pedaço de alumínio.
Surpreendentemente, algumas partes estão extremamente bem-conservadas. Ao que parece, as que ficaram enterradas na areia. Uma das hélices, por exemplo, tem duas pás completamente limpas e polidas como se ainda estivessem em em uso. A outra, completamente incrustrada de organismos tipo molusco, nos induziu a esta suposiçào.
O amortecedor da perna-de-força e o cilindro de atuação são atestado de qualidade. As hastes continuam cromadas como se tivessem saído da fábrica.
A metralhadora é identificável claramente como de uso fixo no nariz do avião. Ainda tem uma carenagem inoxidável presa a ela.
No geral, podemos dizer que o motor é um R-2800(duas estrelas de 9 cilindros cada), a hélice tri-pá, metralhadora fixa, o trem de pouso de roda simples.

Todos esses dados, mais a análise de parte da deriva que saiu do mar inteira, nos levaram a concluir tratar-se de um PV-1 Ventura(a deriva elimina o PV-2). Mas Ventura de quem? FAB, que os teve em Recife e Salvador, ou US Navy?
A existência de munição .50 nos destroços e de bombas cilindrícas nos indicam que o aparelho teria mais probabilidade de ser da Navy e que o acidente ocorrera em tempo de guerra.
Depois de muito gastar e sem perspectiva de encontrar nada mais recompensador, o Sr Deusdedit abandonou os trabalhos. Na verdade, ele tomou essa decisão depois que mulher do seu mergulhador, depois de tomar uma surra, lhe haver denunciado que o marido estava escondendo as coisas lá embaixo, descrevendo até onde ele teria escondido uma das hélices. Comprovada a denúncia, o Deusdedit concluiu que se houvesse algum objeto de valor no avião, esse jamais lhe chegaria às mãos(ele chegou a me confessar que, no início, tinha a esperança de encontrar um tesouro alemão no avião !)
Pela situação que nos foi descrita de como os destroços foram encontrados, e pelo estado das pás das hélices, supomos que esse acidente não tenha tido sobreviventes.

Mas, admitindo que o avião fosse americano, saímos em busca de mais informações.
A US Navy operou durante a Guerra cinco Esquadrões de Ventura no Brasil, que se alternaram entre as Bases do Pici em Fortaleza, Parnamirim, em Natal, Ibura, no Recife e Ipitanga, em Salvador.
Foram o VB-127, VB-129, VB-130, VB-143 e VB-145 que, eventualmente, operaram com alguns aviões isolados, também, em São Luiz, Noronha, Maceió e Ascension.
Durante o período, há registro de oito acidentes com Venturas dos seguintes Esquadrões:

Não temos condições de garantir que não tenham existido mais Venturas desaparecidos, especialmente na travessia para o outro lado do "lago"(o Ventura, devido à sua autonomia, tinha de fazer um pouso intermediário na Ilha de Ascension antes de seguir para Dacar). Seria necessário pesquisar milhares de documentos aos quais não temos acesso.
Tudo leva a crer, no entanto, que o Ventura PV-1 da Baía da Traição é o do Esquadrão VB-129 desaparecido em 20Jun43. Aviões desaparecidos na travessia, obviamente não estariam a quatro quilômetros do litoral.

Vamos continuar buscando informações especificamente sobre esse acidente. Se alguém souber de algo que nos possa ajudar, por favor, faça contato.

Brasília,1985