Ponta do Galeão

Reminiscências não tão antigas

Eu estava de férias no Recife. Muita praia, caju em fim de safra e birita. Como complemento, alguns livros. Um deles, Memórias de um Piloto de Linha do Cmt Luiz Tenam da PANAIR, me fascinou. Questão de gosto, é claro, pois há quem não dê a mínima pelota para o tempo, servidão universal e medida de todas as coisas.
Mas também existem os sonhadores. Preocupados uns, com a visão do futuro, tentando imaginar como as coisas e os lugares serão e outros poucos, ao contrário, que se fixam no passado.
Eu me enquadro nesse último grupo. Sou atraído, não para saber como a vida e os lugares serão daqui a 100 anos mas sim, por tentar visualizá-los como eles foram em tempos passados.
Por essa razão, me amarrei nas memórias do Cmt Tenan, principalmente, quando ele descreve os primórdios da Aviação Naval. Na Ilha das Enxadas e, depois, no Galeão. No Galeão, especialmente, porque ali fui morar em 1945 e a descrição do que era o local na década de 20 me permitiu rememorar os tempos de garoto e, ao mesmo tempo, satisfazer essa necessidade permanente que eu tenho de saber como as coisas eram antes. Quase tudo que existia nos anos 20, ainda estava lá na década de 40 e, do que não existia mais, ainda restavam as ruínas.

Fui morar no Galeão em fins de 45 - início de 46, na Travessa Oliveira, onde fomos os primeiros moradores do n° 134. Mas meu pai, Sargento Escrevente oriundo da Aviação Naval, tenho certeza, viera servir na Base do Galeão ainda durante a II Guerra. Lembro bem porque, vez por outra, ao acompanhá-lo à Base, pegávamos a lancha que saía do cais de Mariangu(ali em Ramos) e ainda pude ver, fascinado, os aviões de Patrulha Martin Mariners da US Navy que operavam da Base.
Aliás, recordo vagamente ouvir, na época, meu pai comentar qualquer coisa sobre um avião americano abatido por um submarino alemão.
Hoje, sei como foi. Meu pai trabalhava na administração do rancho e, por falar inglês, era um dos que que fazia o atendimento de comissaria dos americanos. Ele estava de serviço quando, na madrugada de 05 Jul 43, ao entregar os lanches de bordo no Esquadrão americano, foi informado que um Martin havia reportado na noite anterior estar entrando em combate com um submarino inimigo em frente à Restinga da Marambaia e que esse avião não regressara dessa missão.
O submarino era o U-199 afundado pela FAB em 31 Jul 43 cujos doze sobreviventes, aprisionados, haviam confirmado no interrogatório haverem abatido um avião na noite de 04 Jul 43.
Mas sobre o Martin, tenho uma vaga lembrança de como, em uma ocasião, passando o dia na base com meu pai, acabei no pátio americano na frente dos hangares do que hoje é a Estrada do Galeão.
É conveniente esclarecer que a ponte da Ilha só seria construída mais tarde, em 1949 e até lá, a área à frente dos hangares ficava dentro da Base e os aviões anfíbios desciam pela rampa direto para o mar. No local corria uma bucólica alameda de paralelepípedos sombreada por uma série de amendoeiras que ainda lá estão resistindo à poluição, só que em menor número e mais altas.
Mas, uma vez no pátio, resolvi entrar em um dos aviões e só lembro que o interior era azul e que um marinheiro americano me viu e começou a gritar algo que eu não entendia. Na flor dos meus seis anos, me mandei em desabalada carreira, o coração saindo pela boca.
Quando nos mudamos para o Galeào, tenho certeza, os Martin já não estavam mais lá, sinal de que a Guerra já havia terminado e eles se haviam ido. O que para mim foi uma enorme frustração, pois o que eu mais gostaria de ter visto era uma decolagem ou um pouso deles no mar. Infelizmente, nunca, sequer, vi, um daqueles incríveis aviões brancos voando.
Uma recordação que não se apaga é a do cinema da Base, onde hoje é o Esquadrão 2°/2°. Os americanos o construiram e semanalmente era o programa da comunidade que comparecia em peso.
Havia também o Taifeiro Pinheiro com sua ressonante voz de barítono a ecoar pela noite nos dias em que ele estava de serviço no Rancho. Sua peça de resistência era a cançao italiana Santa Lucía e ele fazia questão que todos,de longe, a ouvissem nos dias de sessão. Na década de 50, quando dos primeiros programas da TV Tupi, algumas vezes o Pinheiro se inscreveu no programa de calouros do Ary Barroso, de onde, invariavelmente, saía com a nota máxima. Até hoje, quando ando pela Base à noite, me vem à mente a lembrança do Pinheiro. Os prédios e o cenário são os mesmos. Só o tempo é que é outro. Nessas ocasiões me pergunto, que destino ele terá seguido?

Tenho saudades, também, da barca da Cantareira. Do trapiche de madeira onde ela atracava só resta um pequeno pedaço - o início, em alvenaria - sob o viaduto que leva ao aeroporto. O desafio da garotada, quando eu andava lá pelos meus oito ou nove anos, era embarcar escondido quando ela zarpava e pular quando ela passasse em frente à Travessa Oliveira. Isso, se a perseguição dos marinheiros não nos obrigasse a saltar antes.
Pescava-se muito camarão na beira da praia e se colhia caju e pitanga nas matas. Como o progresso trazido pela ponte bagunçou a Ilha !

Um episódio inesquecível foi o incêndio da barca Comendador Lage, a única movida à hélice - as demais eram de roda lateral - tipo Mississipi. A Comendador Lage era a mais veloz de todas as barcas, fazendo o percurso até a Praça XV em apenas uma hora, mas não era muito apreciada por nós, uma vez que era perigosa para nossas aventuras por causa do hélice. Ela pegou fogo de madrugada quando pernoitava no trapiche(a primeira barca saía do Galeão para a cidade muito cedo, por isso já pernoitava na Ilha) e, depois de queimar as amarras, saiu pelo canal, levada pela maré vazante, parecendo como que pilotada por mãos invisíveis, até encalhar no banco de areia que existe em frente à saída do Iate Clube Jardim Guanabara.

Embora os aviões americanos já tivessem ido embora, ainda cheguei a ver as célebres lanchas torpedeiras, as PT, eventualmente aparecendo no Galeão. Mas isso talvez tenha sido antes de eu me mudar, não sei bem.

Em 1947,vivemos todos uma aventura fantástica. Visitamos o encouraçado Missouri no qual se havia realizado a cerimônia de rendição do Japão ao General Douglas MacArthur, quando ancorado na Baía de Tokyo. Saímos do Galeão em lancha especial e fomos até o grande navio que estava ancorado mais ou menos em frente ao Flamengo, porque, ao que me foi dado entender na época, o grande calado o impedia atracar.
Mas ja que falamos de lancha, convém explicar que a Base Aérea do Galeão possuia algumas lanchas, tipo Transporte, que traziam o pessoal para o trabalho de manhã e os restituía ao continente à tarde ! Saía uma da Praça XV e outra de Mariangu. E os Mestres que operavam essas lanchas eram do efetivo da Aeronáutica ! Não nos esqueçamos que o Galeão fora da Marinha que havia entregue a Base para o Ministério da Aeronáutica em 1941, quando de sua criação e que, tanto as lanchas, quanto o pessoal que as operava, eram herança da Marinha.
A visita ao Missouri foi uma experiência inesquecível que eu renovaria, quase trinta anos mais tarde, quando levei minha família para conhecer o navio em Seattle.

Não posso falar do Galeão sem falar também no Nilton Santos. Talvez por isso eu seja botafoguense. Ele morava em Flexeiras, um local ocupado hoje pelo Aeroporto Internacional e tinha um tio, o Seu Antonio, que trabalhava na Fabrica do Galeão e que também morava na Travessa Oliveira, quase em frente à minha casa. Era uma glória para nós ver o Nilton Santos chegar na última barca e passar na casa do tio, após os jogos de domingo, chuteira de baixo do braço. Era 1948, quando o Fogão arrasou o Vasco na final em General Severiano por 3 a 1.

A Ilha nessa época ainda era dividida por um muro que ia de mar a mar, começando na Praia de São Bento, passando pelo que hoje é o portão da VARIG próximo à Diretoria de Material Bélico e terminado em Flexeiras. Tudo o que estivesse do lado do Galeão era da União. Havia até uma guarita onde o muro cruzava com a Estrada do Galeão que, obviamente, ainda era de terra (um pedaço desse muro ainda pode ser encontrado na Praia de São Bento subindo a encosta do barranco em direção ao Hospital).
Mas bom na Ilha devia ser morar na Ribeira ou na Freguesia. A barca atracava na Praça da Ribeira e dali saía uma linha de bonde até a Freguesia. Jardim Guanabara ainda era um brejo, embora já existisse o trapiche de cimento onde hoje existe o Clube(esse trapiche foi usado no início da década de 10 para o transporte marítimo para a Ilha - a Ponta do Galeão ainda era apenas uma fazenda). O Jardim Guanabara realmente explodiu depois da construção da ponte.

Saí da Ilha em 1949. Cheguei a cruzar a ponte à pé antes da sua inauguração (pouca gente sabe, mas ela foi obra da Diretoria de Engenharia do Ministério da Aeronáutica). Quando voltei em 1951, o caos já começava a despontar. Só quem conheceu a Ilha antes da ponte pode, hoje, avaliar como o progresso a estragou.

Era gostoso ser Ilhéu. E na época do Cmt Tenan deve ter sido melhor ainda...