"Afundou Tudo"

É o que a gente houve falar quando de algum "crash" ou arborizada fazendo curva baixo com vento de cauda, seja no lift, seja na aproximação para pouso. De asa ou parapente, normalmente nos é ensinado que quando se vira as costas para o vento, se perde sustentação. Na verdade se afunda, mas não se perde sustentação, salvo em casos especiais conforme veremos. Para uma compreensão mais precisa do que ocorre nesses casos faz-se necessário o conhecimento de alguns conceitos sobre velocidade:

Va-velocidade no ar - também conhecida como velocidade verdadeira (do inglês True Airspeed) é aquela na qual voamos em relação à massa de ar que nos envolve. A baixa altura, ela nos é indicada diretamente nos anemômetros ou velocímetros. No nosso caso é medida através do acionamento de um rotor (como no pequeno Skywatch), embora existam algun aparelhos tipo ampola de plástico cujo cursor é atuado diretamente pela pressão dinâmica do ar de deslocamento. A medida que se sobe, entretanto, o ar, ao se tornar mais rarefeito (menos denso), impacta com menos força no aparelho de medição, fazendo com que a velocidade indicada seja menor que a Va.
Vi - velocidade indicada - é a velocidade que o aparelho medidor indica. A Vi só é igual à Va à baixa altura. No vôo-livre isso tem pouca importância, pois nossos valores são bem pouco expressivos, tanto de altura, quanto de velocidade. Mas só para ter uma idéia, uma asa que esteja voando à 3 mil metros de altura com uma Vi de 60km/h estará aproximadamente, em realidade, com uma Va de 70 km/h.
Vs-velocidade no solo - é a Va influenciada pelo vento.

A velocidade que nos interessa, para efeitos práticos, será sempre a Va(a Vi não nos é muito importante, por isso não iremos considerá-la) o que, para quem conhece bem o MAPIL e voa de parapente, significa o mesmo ângulo de ataque(Alfa). E essa velocidade só irá variar se alterarmos esse ângulo pela atuação dos freios, trimmer ou acelerador. Portanto, um parapente, com a mesma carga-alar, estará sempre na mesma Va e, caso o vento seja nulo, com a mesma Vs.
Quando temos o vento atuando, conforme já dissemos, a Vs será alterada para mais ou para menos da Va em função do componente de vento ser de proa ou de cauda. Se estivermos com uma Va de 35km/h (o que equivale à freios soltos na maioria dos parapentes) e um vento de proa de 35km/h, estaremos com uma Vs zero, ou seja, estaremos parados em relação ao solo e com o parapente voando normalmente dentro da massa de ar a 35km/h. É como se estivéssemos dentro de uma redoma voando no seu interior à 35km/h para a frente e ela estivesse se deslocando na mesma velocidade para trás em relação ao solo. E o mesmo raciocínio é válido para um vento de cauda, pois, neste caso estaríamos somando a nossa Va com a Vs da redoma, o que resultaria em uma Vs de 70km/h.

E o que ocorre com o nosso gradiente de descida(ou seja, o nosso L/D em relação ao solo) nessas variações de vento?

Quando o vento está de proa, a nossa Vs será menor e, conseqüentemente, ao andarmos menos para a frente e sem alteração para baixo, teremos uma redução sensível do L/D. Com vento de cauda, ao contrário o L/D aumentará significativamente, daí a sensação de estarmos afundando mais rápido quando a verdade é que estamos andando mais rápido em relação ao solo. Havendo espaço de manobra, não haverá problema. Não havendo, acaba-se nas árvores porque "se afundou direto".

No entanto, é importante ter-se em mente que essa explicação que desenvolvemos considerou o vento uniforme e laminar. Quando ele é de rajadas, com variações bruscas de velocidade, a Va é influenciada, podendo fazer com que o aerofólio efetivamente possa perder momentaneamente a sustentação e ter de, naturalmente, mergulhar para readquirí-la. Isso ocorrerá, por exemplo, quando se voa com um vento de proa e ele cessa ou diminui bruscamente ou quando se recebe uma rajada de cauda. Neste caso específico, se já estivermos com vento de cauda e subitamente formos atingidos por uma rajada que aumente bruscamente esse componente, aí sim, em curva à baixa altura, poderemos entrar voando pelo chão por perda de sustentação.

Portanto, cuidado em presença de vento forte e turbulento quando próximo do relevo. Especialmente com vento de cauda. Aí, realmente, afunda tudo.